A porra da minha cabeça.
Eu acho que a verdade é que eu gosto da desorganização.
Viver no caos me remete a conforto porque eu me distraio tentando consertar e ajeitar o lado de fora. Não há período para sentir-se triste ou amargurada, porque não resta tempo para observar a massa esvaiando pelos buracos do meu âmago, somente foco em tentar harmonizar o externo.
O que é leve e brando não me agrada, pois me levou a observar os rombos, não há o que me conserte, tá tudo fodido.
Estou em destroços e sua calma não me trás paz, me trás desespero.
Eu quero a bagunça, eu quero as brigas e a violência. Eu quero gritar até minha garganta doer. Eu quero o desrespeito e o desaforo. Eu quero a impulsividade e as loucuras planejadas.
Eu preciso do caótico para não enlouquecer e você não me dá isso, então não nos encaixamos.
Porque no final das contas, a realidade é que eu sou ruim, eu sou egocêntrica, maldosa, manipuladora e terrível, e quando as coisas estão silenciosas demais é difícil lidar com essas versões, pois por falta de ter em quem descontar se voltam contra mim, e narcisista como sou, jamais aceitaria a autodestruição.
22/05/2019 - palavras encontradas em um arquivo morto
Mentiras podem comprar eternidades. Sou a prova da mera sentença. Ainda presa nas promessas, estagnada nos pretéritos planos. Eu estou injuriada disso, de toda essa falsa merda congelada romanticamente. Eu preciso me desunir de todo esse infortúnio, expelir.
Amassada e arremessada, como um rascunho mal feito que alcança o mais alto que jamais sequer pensou que seria capaz, mas logo adentra a lixeira, que por toda a vida sempre o esperou. Sou um rascunho, os rabiscos minhas marcas de uso.
Preciso me familiarizar com a superfície, novamente. Somente um pouco de potência nos meus corretivos e voilà, aí está o que me convém. Preenchida por veneno, as coisas já estão totalmente ofuscadas por esse imenso vazio eterno, mentiras que possuem minha eternidade. Minhas raízes instáveis e quebradiças. Um ciclo que nunca acabará, 3,1415 e histórias que nunca pude viver.
*A ANTIGA EU É TÃO MELANCÓLICA, MORREU, AINDA BEM*
Youri
Quando estou na sua companhia,
Atinjo o centro do todo.
Sei que é o que merece: o todo.
E te dou. Te ofereço ele.
E o retorno é o complexo inexplicável;
Indescritível.
É como colapsar e ainda sentir fortalecer a força vital.
Derreto, pois você é incandescente.
Como energia térmica, arde minha essência.
E meu âmago entra em chamas.
O beijo proporciona combustão.
Acesso o inacessível,
Sinto o impalpável e realizo o irreal.
O sagrado se explode em mim.
E por milésimos compreendo todo o universo,
Cada pedaço dele, porque este está dentro de mim
Assim como você.
Cazura
amour et douleur
Sinto agora a acidez da angústia em minha pele, o tormento raivoso em minha mente. Te ver aos braços dele enquanto cantarolava, como em outrora ao meu lado foi como se uma espada de desespero penetrasse diretamente meu coração.
Mergulhado em meus últimos suspiros, sinto o peso da limitação em meu peito. A juventude já me abandonou a tanto tempo e com ela a força de agarra-lá aos meus braços novamente. Lhe deixei ir, pois não merecia dormir sentindo o cheiro da morte ao seu lado. Você merece a vida, as flores coloridas, as músicas dançantes, os risos e a leveza.
A carne putreficada que me acopla jamais lhe ofereceria isso por longo tempo. Somente breves e pequenas memórias das quais revivo todos os arrastados dias que me restam. Memórias que altero ao meu gosto, nelas, faço de meu corpo forte e vital. Nelas sinto meus batimentos regulados, como a batida do sino da igreja que escutavamos todo domingo. E nós corremos pelo campo, corremos. Não altero porém e somente, o beijo que me destes. Este o mais doce e puro de todo o mundo, capaz de fazer do mais fraco coração, o mais potente e apaixonado.
Agora, apesar dos pesares, morrerei um homem feliz pois amor foi tudo o que eu senti desde que lhe conheci, até mesmo em sua ausência pois as memórias foram o maior presente que me oferecestes. Só lhe desejo o que é tranquilo.
Tenha uma vida repleta de alegrias. Eternamente será minha amada.
— CAZURA
Ronda
Você, você que a 12 anos atrás cabia na palma da nossa mão, gorducha, frágil e assustada. Não entendia o que estava acontecendo mas já aquecia nossos corações com lambidas tímidas e o olhar de afeto. “Vai se chamar Ronda!” ecoava no carro fabricado pela Honda Motor Company, não era lá o nome mais criativo do mundo, mas combinou tanto com você. Não demorou muito e já se soltava, um rabo maior que o corpo, toda desengonçada. Cresceu rápido e aprontava, ôh se aprontava. Adorava as 7 horas da manhã, antes mesmo de alguém no terreno que morávamos acordar, invadir a piscina que nem nossa era e tomar seu banho matinal. Amava nadar, apesar de nunca ter visto o mar. Você tava lá nas conquistas e nos momentos difíceis, nos mudamos e a adaptação na nova casa foi rápido. Você até comeu metade do sofá novo! Tinha seu grande companheiro Zartã, com quem até teve filhinhos, vocês provavelmente se amavam pois deram um jeito disso acontecer, tendo em vista que separavamos os dois para evitar. Mas aconteceu. Teve muitos bebezinhos. Todos encontraram um lar e se tornaram ainda maiores que você, cuidamos para que tudo isso ocorresse corretamente. Sei que você confiava em nós. Sei também que você foi extremamente feliz. Você sacudia o bumbum e balançava o rabo quando estava feliz, e nossa, nesses 12 anos ouvimos muito esse rabo batendo nas coisas, sacudindo incessantemente, questionavamos a você “não dói bater o rabo nas coisas assim Ronda?” e você sacudia mais freneticamente. Era feliz, sei que era, mas não sei se mais do que nós, pois tínhamos você. Você nos trouxe tanto amor, tanta alegria. Parecia que entendia tudo, uma grande alma. Ficava cabisbaixa quando não ganhava seu pão francês, totalmente viciada em pão, nos desculpe as vezes em que reduzimos seu paozinho diário, era para sua saúde.
Nossa grande viciada em pão, nos dói o peito de saudades. Nós, sua família, vamos sentir muito a sua falta, mas não nos cabe no peito a alegria de ter tido a oportunidade de te ter em nossas vidas. Obrigada por tanto Ronda. Descanse em paz.
23/02/2022
entrecruzados
Quero me entrelaçar a você,
exteriorizar o que dantes permeia,
manifestar fisicamente o que já é concreto
no intátil, no incorpóreo.
O psíquico previamente reunido implora pelo tangível.
Seremos um meu amor,
um seremos.
Um já somos,
somos um.
CAZURA
(via aestheticacadema)
BRANDO
Eu carrego dentro de mim muitos segredos desde a sua chegada. Há tantas coisas borbulhando aqui que me fazem estremecer por fora, é como um vulcão prestes a entrar em erupção. Já vivi o superficial, já senti o que achava que era intenso, já experimentei a insanidade das paixões avulsas e já pensei que amor fosse apenas um estado emocional que nos leva a ruínas. Sempre tudo pesado. Sempre tudo desorganizado, caótico. Denso.
Contudo, você existe e por grande sorte minha, cruzou o meu caminho. E que leveza toda é essa? Eu te chamo de anjo e não é atoa, você parece mesmo com um. Quando penso em nós, lembro-me de cenas avulsas de filmes assistidos por toda a vida, cenas de valsas tão bem executadas que acontecem como fenômenos naturais. É leve e acontece. Nós somos a dança que acontece e é tão linda, é tão solta e tão bem desempenhada. Eu flutuo ao seu lado. Eu vivo a suavidade que a vida pode nos proporcionar e eu não sabia que tudo era tão bonito assim.
Nunca te disse sobre, mas aquele nosso primeiro abraço trouxe consigo a delicadeza do que é vasto, pois assim senti a imensidade do certo. O primeiro abraço do reencontro. Um resgate de memórias inexistentes nesse tempo.
Meu coração bate tão forte quando você me vem a mente, que os pensamentos de tudo o que eu tenho pra te falar se passam em questão de segundos, é tanta coisa pra externar mas que se expressam tão bem em um momento de silêncio ao seu lado, com nossas mãos entrelaçadas.
O singelo se converte no extraordinário, e nós nos deixamos levar.
Sabemos das vibrações que nos cercam quando estamos um ao lado do outro, sabemos como balança a conversão das palavras não ditas por receios ou incertezas, oscilam e se alojam no meio de nós dois. Mas nossa mente grita e nossas almas dizem o que querem dizer uma à outra. Sentimos isso com intensidade e vivemos isso com maestria. E eu provo do suave prazer de compartilhar momentos assim com você. Vivo a beleza de me sentir obra de arte ao seu lado.
Eu amo você. Eu amo sua gentileza. Amo sua franqueza. Eu amo o conforto que me causa. Eu amo sua voz. Eu amo suas manias. Amo seu cheiro. Amo quando toca meu corpo. Amo quando fala baixinho no meu ouvido. Amo como você abraça minhas fragilidades. Eu amo a forma como me sinto protegida ao seu lado. Eu amo seu sorriso. Amo sua curiosidade. Amo seu olhar. Amo suas piadas e como me faz rir o tempo todo. Amo o caimento do seu cabelo sobre meu rosto, bloqueando a visão de tudo a volta, fazendo parecer que só existe nós dois no mundo. Eu te amo por me mostrar que o amor acontece e é solto, leve e brando.
E aqui tento com o pobre recurso limitante das palavras expor a linda montanha russa que há dentro de mim, quando o tema é nós. A sua doçura me contagia, o jeito afável que me zela é envolvente, você me abraça com olhares e me afaga com palavras, de tudo isso, portanto, me resta apenas o agradecimento: Obrigada por causar o efeito mais sincero, doce e aprazível aos meus sentidos.
Te guardo aqui, onde você bem sabe onde.
19/11/2020 13h24
— CAZURA
Origem.
O nosso primeiro encontro
O reencontro de eras
O abraço com o aperto da saudade que atravessa tempos e vidas.
O seu cheiro que transborda aconchego,
Levou embora a nostalgia que me assombrava.
Era falta de você.
O jeito como você faz as coisas soarem leves.
Essa sua risada que faz eu me sentir em paz.
A maneira como me conduz sempre à sorrisos desengonçados.
Parece que não houve uma apresentação,
Não existiu o início de nós.
Não nesse nascimento.
Eu sinto que te guardo de outras estações
De outra geração.
O ensejo do nosso cruzamento já ocorreu,
Faz muitas vidas.
Sinto falta do nosso pretérito distante
E sequer o vivemos.
As memórias indecifráveis de outrora,
Comovem sentimentos desconhecidos
Que pareço identificar tão bem quando ouço sua voz.
E é tudo um caos tranquilo
Como a melodia causada pelas tempestades.
Você e eu somos obra de arte.
Nós sabemos disso.
Bom, eu sei disso!
— CAZURA
Noir
Chove lá fora
Mas posso sentir a água escorrer
Em meu rosto
Apesar de estar dentro
Hoje a alma dói
O disco arranhado
A voz de B.B King distorcida
Um suspiro, olhos se fecham
E eu nos vejo naquela noite
Uma noite de julho
Cheiro de grama cortada
Nossos beijos e o gosto da nicotina
Minha risada alta
Seu olhar que se perdia no meu corpo
Encaixe de âmagos
Euforia pela eternidade
Em nosso organismo
Jovens e tolos
Parecia para sempre
Nós dois e o mundo
Éramos só nós dois e o mundo
E o B.B King.
— Cazura

